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Sobre Orgânicos

 

Ana Elisa Feliconio, especialmente para o Sítio do Moinho

I) Introdução

A visão do jardim como um local onde cresce tudo o que precisamos, onde encontramos não apenas plantas para nos alimentar, mas também para nos tratar (medicinais) e nos embelezar, lembra muito em pleno século XXI, o jardim mais antigo e famoso da História – o Éden. Este é o jardim primordial que aparece em todas as mitologias, é o lugar de abundância onde o homem possui tudo o que deseja, sem precisar obtê-lo por seu trabalho (Brosse, 1993). É enfim, a imagem que traduz para a humanidade a idéia de Paraíso.

Além das referências bíblicas, a história dos jardins também nos remete aos egípcios, que  cultivavam plantas por volta de 6000 a.C. Já os persas foram os primeiros a cultivar plantas que seduziam pelas formas, perfumes, cores e texturas – as espécies que hoje chamamos de ornamentais (Santos, 2006).

Também fazem parte da história antiga os famosos Jardins Suspensos da Babilônia, construídos pelo rei Nabucodonosor no século VI a.C. - onde hoje fica o Iraque -  para agradar e consolar sua esposa preferida Amitis, que sentia saudades dos campos e florestas de sua terra natal. Os terraços foram construídos um em cima do outro e eram irrigados pela água bombeada do rio Eufrates.  Nesses terraços estavam plantadas árvores e flores tropicais, além de alamedas com altas palmeiras. Numa região onde a água é escassa, eles representavam a abundância e a beleza da natureza que o dinheiro e a inteligência humana faziam florescer em um local antes inóspito. Não se sabe quando foram destruídos, mas até os dias atuais ainda são lembrados como uma das sete maravilhas do mundo antigo(Wikipedia, 2006).

No mundo ocidental, os jardins foram introduzidos pelos romanos e posteriormente na Idade Média, com o interesse dos cientistas pelo mundo natural, adquiriram o status de campos de estudo através da pesquisa das plantas (botânica). Iniciava-se a era dos jardins botânicos, denominados hortus medicushortus academicus, que surgiram com o objetivo de auxiliarem o ensino da medicina e de fornecerem matéria-prima para os medicamentos à base de plantas (fitoterápicos). Os primeiros jardins botânicos foram fundados no século VXI, nas cidades italianas de Pádua, Piza e Florença (Wikipédia, 2006).

No Brasil, os jardins botânicos ganharam apoio para permanecer até os dias atuais a partir do século XIX, graças à influência do príncipe regente D. João VI, que em 13 de junho de 1808 fundou o Jardim Botânico da Aclimatação, denominado Real Horto e posteriormente Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Nos dias atuais, este é o Jardim Botânico mais famoso do país pelas pesquisas científicas desenvolvidas na área da botânica e pela coleção de milhares de plantas em arboretos (árvores numa área de 67 hectares), herbários e estufas  (IAC, 2003).

Um Jardim Botânico é definido como um espaço delimitado onde se cultivam plantas representativas de gêneros e espécies, que são conservadas, herborizadas (secas) e identificadas. Atualmente, possui como principais objetivos: ser local propício a práticas de educação ambiental e lazer, disponibilizar os meios necessários para realização de pesquisas científicas com material vegetativo(mudas, sementes, plantas adultas, etc) e promover difusão tecnológica para o cultivo e aproveitamento das espécies nativas ou exóticas (IAC, 2003).

Todos os jardins nascem da atividade da jardinagem, definida como “a arte de criar e manter plantas, com o objetivo de embelezar espaços, públicos ou particulares” (Wikipedia, 2006). Entretanto, ela possui um significado bem mais amplo para aqueles que a praticam, porque se trata de uma atividade que estreita a relação do ser humano com a natureza, que o desperta para os fenômenos e os tempos biológicos e que proporciona bem-estar não apenas para quem trabalha com as plantas, mas também para todos que podem apreciá-las.

A jardinagem é também uma atividade que exige concentração, pois para cuidar de uma vida é preciso prestar atenção aos mínimos detalhes, o que garante o bem-estar da planta. O interessante, é que o mesmo tempo que empregado para o cuidado de um outro ser vivo acaba sendo também um tempo nosso, em que estamos em silêncio e mais próximos de nossa essência (algo semelhante à meditação). É um tempo para contemplar a natureza a nossa volta e também a nossa natureza interna. Por isto é que as pessoas que se dedicam à jardinagem costumam dizer que ela é relaxante, apesar do trabalho (às vezes árduo) que ela exige.

O Japão é um dos países que mais admira e propaga a arte da jardinagem em seu território. Lá foram criados os jardins zen que são usados como local de reflexão e meditação - e também são recorrentes na literatura budista. "São geralmente jardins com pedras que podem ser deslocadas. O principal atributo deles é trazer a tranqüilidade e uma idéia de simplicidade", afirma a monja Coen, que passou 19 anos de vida monástica no Japão, onde os jardins também têm papel fundamental na cerimônia do chá. Os arranjos orientais que são vistos nos jardins japoneses fazem microrrepresentações de elementos do mundo natural, como montanhas, lagos e cachoeiras. "Tem o mesmo sentido do bonsai, de trazer uma árvore para dentro de casa. Utilizamos também plantas que representam bem a estação do ano, para lembrar a passagem do tempo", explica o biólogo e paisagista Hissachi Kurashima(D'Àvila, 2005).

Considerado, portanto, como um microcosmo do mundo natural, uma representação em pequena escala da natureza, a forma como nos relacionamos com o jardim ou com as plantas de casa espelha nossa contribuição para a conservação de ecossistemas em maior escala.Em outras palavras, cultivar um jardim é cultivar também nosso modo de pensar sobre tudo o que é vivo. Por exemplo: de que adianta defendermos a sobrevivência de espécies ameaçadas de extinção na Mata Atlântica se despejamos indiscriminadamente inseticidas ou iscas de veneno no jardim comprometendo toda cadeia biológica que vive nesse local (pássaros, aranhas, joaninhas, minhocas, borboletas, cigarras, besouros, formigas não cortadeiras, etc)? Ou reclamar da falta de água nas torneiras e depois irrigar em excesso o jardim ou nos horários mais quentes do dia?

Em outras palavras, a maneira mais eficaz de contribuirmos para a questão ambiental é conservarmos o “meio ambiente” que está sob nossa responsabilidade: nossas plantas, bichos de estimação, a água que usamos em casa, o cuidado com o lixo, o uso da energia elétrica, do gás e da gasolina através do carro, o manejo de produtos químicos para limpeza doméstica, etc. No que diz respeito aos jardins e às plantas domésticas, existe a opção de praticarmos a jardinagem ecológica, como atividade que embeleza as residências sem prejuízo para o planeta. A seguir, veremos as condições necessárias para a prática da jardinagem ecológica.

2) Jardinagem Ecológica: aprendendo com a natureza

No século XX, o brasileiro Roberto Burle Marx (1909-1994) ficou mundialmente conhecido por valorizar as plantas tropicais nos jardins e sua harmonia com as florestas nativas locais. Agrupando as espécies da flora brasileira em desenhos assimétricos, valorizando as texturas e formas das plantas como expressão de beleza, Burle Marx destacou o valor da biodiversidade na composição dos jardins e a importância de se aprender com a natureza, através da observação atenta dos ecossistemas originais. Sua influência pode ser vista no paisagismo empregado nos Jardins Botânicos brasileiros da atualidade (IAC, 2003).

Lembrar a trajetória de Burle Marx é importante porque acreditamos que ele foi um jardineiro ecológico por excelência. De acordo com o paisagista, o princípio que deve reger os trabalhos é o conhecimento das plantas e seu ecossistema original, em atitude de respeito e comprometimento com a preservação das espécies vegetais ameaçadas de extinção. Esta harmonia entre o homem e a natureza deve se espelhar no jardim em si, como uma obra viva que resulta da combinação de diferentes formas e cores como na pintura ou nos sons musicais (Secretaria do Estado da Fazenda do Espírito Santo, 2006).

Para Burle Marx era fundamental que as espécies raras não fossem obtidas através da retirada predatória dos ecossistemas. Era preciso, portanto, conhecer essas espécies e reproduzi-las nos jardins que projetava. Dessa forma, Burle Marx reproduzia, através dos projetos de paisagismo, mudas de dezenas de espécies que foram salvas da extinção: orquídeas, antúrios, helicônias, filodendros, cebola da mata, sapitiabas; entre muitas outras. (Secretaria do Estado da Fazenda do Espírito Santo, 2006).

É interessante dizer que enquanto viveu, Burle Marx empreendeu inúmeras viagens pelo interior do Brasil, acompanhando botânicos para o conhecer o habitat, coletar e catalogar espécies vegetais. Algumas foram descobertas por ele e batizadas com seu nome. Através dessas experiências, o famoso paisagista aprendeu o que hoje é amplamente divulgado pelos centros de pesquisa em ciência naturais: que os ecossistemas naturais (florestas, cerrados, campos, etc.) são regidos por inúmeros mecanismos naturais que o ser humano conhece apenas em parte. Do funcionamento e da interação entre esses diversos mecanismos é que depende o equilíbrio ecológico de cada ambiente, seja ele natural ou intencionalmente plantado pelos homens, como as lavouras, as pastagens e os jardins ( Francisco Neto, 1995).

Em regiões tropicais, conhecer e manejar pelo menos quatro desses mecanismos é fundamental para aqueles que se propuserem a cultivar jardins, pomares ou hortas caseiras em sistemas ecológicos de produção (Francisco Neto,1995). São eles:

• A reciclagem da matéria orgânica e dos nutrientes (compostagem, aproveitamento das sobras das podas para fertilizar o solo, etc.)

• A manutenção de cobertura vegetal permanente do solo com plantas vivas ou com matéria orgânica em decomposição, chamada demulche. Exemplos: grama ou outras espécies rasteiras que forrem o chão, folhas e galhos caídos, resíduos de roçagem de grama, etc.

• A promoção da biodiversidade, com o manejo do companheirismo entre espécies de plantas e destas com outras espécies (insetos, pássaros, minhocas, etc). Também é importante conhecer as relações de antagonismo (competição, parasitismo) entre as plantas ou delas com outros organismos vivos (insetos, bactérias, fungos, vírus, etc), que podem se tornar pragas ou causar doenças nas primeiras.

• A seleção natural, como forma de privilegiar a reprodução das plantas mais vigorosas e rústicas, que sejam resistentes a intempéries climáticas ou a doenças, por exemplo.

Para o jardineiro ecológico, todo o trabalho começa com a fertilização do solo e a promoção de uma boa estrutura física, umidade e aeração. Na prática, esses cuidados irão proporcionar aos milhões de organismos que vivem nele (fungos, bactérias, nematóides, besouros, formigas, cupins, minhocas, etc) além de um microclima favorável, energia e nutrientes. A vida presente no solo é, portanto, a base de sua vitalidade e o alicerce sobre o qual irá se construir também a saúde e o vigor das plantas.

Por essa razão que todo o trabalho deve partir primeiramente do solo e não das plantas. Isto porque de nada adianta investir tempo, produtos e esforço com adubos orgânicos ou com a colocação de calcário para equilibrar o pH do solo se este estiver compactado (duro, sem poros, matéria orgânica e sem aeração), exposto ao sol e a chuva forte, com indícios de erosão. Na construção civil equivaleria à situação de um engenheiro ou arquiteto que se preocupa com as paredes sem haver terminado as fundações da casa.

É, portanto, a percepção do solo como um organismo vivo, que também “respira” (através dos seres que nele vivem), o grande diferencial das correntes da agricultura ecológica. É a partir dessa visão inovadora, abrangente (ou holística) e interdisciplinar que os jardins ecológicos deverão ser planejados, implantados e mantidos.

Por esta razão, a construção de um jardim ecológico exige cuidados quanto  à utilização de insumos industriais. Não devem ser usados pesticidas sintéticos (inseticidas, acaricidas, fungicidas, etc) devido aos riscos de contaminação ambiental ( águas e solos) e de intoxicações para os seres humanos (Paschoal, 1994). Ainda que usados em pequena escala ou pertencentes à classe de menor toxicidade (cor verde nas embalagens) os agrotóxicos provocam desordens metabólicos nas plantas e nos organismos que vivem no solo, causando um desequilíbrio ecológico no jardim como um todo. Por motivos semelhantes, o uso de fertilizantes líquidos para fornecimento de nitrogênio em vasos ou nos canteiros também deve ser evitado, dando-se preferência aos compostos orgânicos ou ao esterco curtido na adubação dos jardins. Para os leitores que desejarem saber mais sobre o tema, indicamos o texto Agrotóxicos: riscos para a saúde e o meio ambiente, que se encontra na seçãoSaiba mais sobre Agrotóxicos deste site.

Da mesma forma o uso de “caldas caseiras” (com enxofre, vinagre ou fumo de corda, por exemplo) deve ser reduzido ou evitado se possível. Não basta substituir um produto por outro para realizar a jardinagem dentro dos princípios da agricultura orgânica.  O que gostaríamos de enfatizar para os leitores, é que a construção de um jardim ecológico não depende de técnicas isoladas ou de “pacotes prontos” para existir (como acontece no modelo convencional da agricultura e da jardinagem). Depende, fundamentalmente, deprincípios que nos convidam para uma nova ética nas relações entre seres humanos e natureza, com tudo que esta envolve - ar, água, terra, sol, os ecossistemas e os reinos vegetal e animal.

Em outras palavras, a idéia central é trabalhar coma favor de, e não contra a natureza, desenvolvendo jardins com o mínimo de intervenção externa (insumos, energia não renováveis) e de acordo com os mecanismos naturais anteriormente citados.

Dentro dessa perspectiva, os jardins ecológicos são criados para se tornarem sistemas que tenham como principais fontes de energia a luz do sol, dos ventos, e/ou das águas, produzindo energia suficiente para suas próprias necessidades. Ou seja, é fundamental considerar a auto-suficiência energética, assim como a utilização criteriosa dos recursos e insumos utilizados, com eliminação de desperdícios e otimização do trabalho e do tempo empregados. O uso da água em gravidade (dispensando-se bombas) para irrigação, de pipas para indicar a direção dos ventos, de placas de energia solar ou de rodas d'água, são exemplos de otimização no uso de recursos naturais.

Entretanto, ainda que não seja possível manter um jardim a partir dessas fontes de energia mais sustentáveis, ainda que façamos uso da energia elétrica na movimentação de bombas, por exemplo, nós - os jardineiros ecológicos - podemos aproveitar de forma responsável todos os recursos da natureza (luz solar, ventos, água, diversidade de espécies, solos, etc),  contribuindo para que continuem disponíveis no futuro. No próximo tópico, apresentaremos algumas práticas da jardinagem ecológica.

 

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