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Sobre Orgânicos

 

Ana Elisa Feliconio, especialmente para o Sítio do Moinho

1) Introdução

O leite, em todas as suas variações, é o produto alimentício preferido na Alemanha. Em média, cada alemão consome anualmente 94 quilos de leite puro ou de seus derivados, como iogurte ou queijo fresco (Magazine-deutschland; 2005).

Além dos laticínios, os consumidores alemães também valorizam a alimentação saudável, em especial frutas e legumes: em média, são consumidos 93 quilos por pessoa anualmente neste país. Ao contrário, o consumo de carne per capita perfaz um pouco mais de 60 quilos por pessoa ao ano, estando no terceiro lugar da lista. Apenas no ano de 2004, por exemplo, o movimento de venda dos produtos orgânicos na Alemanha foi de 3,5 bilhões de euros. Os alemães dão muito valor à qualidade dos gêneros alimentícios, principalmente do leite e de laticínios, setor este que perfaz 15% do volume de vendas dos produtos orgânicos (Magazine-deutschland; 2005).

No Brasil, entretanto, o número de propriedades certificadas para a produção de laticínios orgânicos ainda é pequeno, se comparado ao de projetos de hortaliças e frutas orgânicas. Um exemplo de destaque é o da Fazenda Tamanduá, situada no Município de Santa Terezinha, próximo a cidade de Patos, Estado da Paraíba no Nordeste do Brasil.a produção leiteira e os queijos da Fazenda Tamanduá desde 2001 são certificados pelo IBD (Instituto Biodinâmico). O leite é produzido por vacas de raça Parda Suíça, cuja rusticidade é lendária e particularmente bem aclimatada ao sertão Atualmente são fabricados quatro tipos de queijo na Fazenda Tamanduá : dois de origem européia, o Saint Paulin e o Reblochon, a Ricota e um nordestino o Queijo de Coalho. A produção por ano chega a 35 toneladas (Fazenda Tamanduá, 2006).

Segundo Pierre Landolt, proprietário da fazenda Tamanduá e membro da Associação Brasileira de Pecuária Orgânica, o interesse do consumidor brasileiro pelos queijos europeus produzidos em manejo orgânico ainda é baixo, devido a um mercado de laticínios orgânicos ainda muito pequeno, quase inexistente: ainda não faz parte da cultura nacional, e quem consome queijos "sofisticados" acha melhor comprar queijos importados do que oriundo de leite orgânico (Planeta Orgânico, 2006). Em outras palavras, o mercado brasileiro para os laticínios orgânicos ainda está em fase de estruturação, tendo sua maior demanda concentrada nas regiões sul e sudeste do Brasil.

No que diz respeito à normatização, a produção brasileira de alimentos orgânicos tem normas específicas editadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A legislação estabelece uma série de procedimentos para que o leite de uma propriedade seja considerado orgânico. Tais procedimentos regulamentam a alimentação do rebanho, instalações e manejo, escolha de animais, sanidade e até o processamento e empacotamento do leite (Borges e Neiva, 2005).

Como exemplo, citamos algumas normas que devem ser seguidas para a produção do leite orgânico e seus derivados:

• O confinamento dos animais é proibido. Eles devem ter acesso a piquetes para exercitar-se e tomar sol no mínimo três horas por dia.

• Os sistemas silvipastoris são indicados na proporção de 10 a 15 árvores por hectare.

• As pastagens consorciadas devem estar livres de agrotóxicos ou adubos químicos e todas as leguminosas ou grãos acrescentados à dieta devem ter origem orgânica. Nas épocas de seca, quando a pastagem, às vezes, é insuficiente, é permitido acrescentar matéria de origem convencional, desde que a quantidade se restrinja a 10% da alimentação.

• São proibidas mutilações, como descornas (retirada dos chifres), para não estressar os animais.

• Os produtores devem ainda estar atentos para os produtos usados na lavagem e desinfecção dos utensílios. Só são permitidos detergentes biodegradáveis.

• São proibidos aditivos, hormônios ou promotores de crescimento, inseticidas, carrapaticidas e vermífugos convencionais, estimulante de apetite, uréia, entre outros (IBD, 2002).

De forma geral, podemos dizer que as questões relativas à saúde dos seres humanos e dos animais, assim como práticas potencialmente poluidoras pelas quais os produtores da pecuária convencional ou comum não se responsabilizam, na pecuária orgânica passam a ser decisivas para a concessão do selo de produto orgânico.

Questões como a intoxicação dos tratadores e dos animais durante a aplicação de produtos carrapaticidas ou a poluição de solos, rios e lagos com os resíduos de pesticidas usados nos chamados “banheiros” de gado, não apenas são descritas e consideradas pelas normas que regem a agricultura orgânica no mundo, como também são práticas que devem ser banidas de toda propriedade que estiver em processo de conversão para a pecuária orgânica. Todo o sistema de manejo é direcionado para promover as práticas preventivas da doença (vacinas, alimentação balanceada e sob manejo de agricultura orgânica, espaço e conforto para os animais, etc.) de forma a minimizar a interferência dos veterinários no rebanho.

II) Pecuária Orgânica: conhecendo suas particularidades

Ainda sobre o manejo adotado na produção de laticínios orgânicos, uma importante dúvida dos produtores que pretendem aderir ao sistema orgânico é sobre a eficácia do controle das doenças do rebanho com fitoterapia (uso de plantas medicinais) e homeopatia. Antes de citar exemplos, vale destacar que, todas as práticas utilizadas na pecuária orgânica são fruto de uma percepção mais ampla do fenômeno “saúde/doença”, que considera além dos agentes causais (vírus, bactérias, fungos, protozoários, etc.) também as condições orgânicas dos “hospedeiros” (que são os animais do rebanho) e do ambiente em que estes últimos estão inseridos (solo, clima e demais condições ambientais da propriedade). Todo este cenário é analisado pelo profissional juntamente com o produtor antes da recomendação de qualquer prática aceita pelas normas da agricultura orgânica (Avancini, 1994).

Quanto à eficácia dos tratamentos utilizados na pecuária orgânica, segundo o produtor e veterinário especializado em homeopatia, Eduardo Lima, os remédios homeopáticos têm mostrado grande eficiência e efeitos até mais rápidos que os de medicamentos alopáticos.  "Alho misturado ao sal ou à ração como repelente de parasitas, chá de camomila, malva ou folhas de goiabeira contra diarréia, chá de erva rubim contra inflamações, folhas de bananeira contra vermes, tudo isso tem eficiência altíssima e substituiu os produtos alopáticos", diz Lima. Para doenças como mastite, pode-se usar Phitolacca; contra pneumonia, Arsenicum album; e contra os dois, Biônia e Arnica, medicamentos conhecidos do receituário homeopático. Mas, como em todo tratamento de saúde, é importante que haja o acompanhamento de um profissional para que a medicação faça o efeito desejado, alerta o veterinário (Glass, 2000).

O veterinário Raymundo Araújo Filho que há vários anos tem acompanha produtores de leite orgânico no Rio Grande do Sul é outro profissional que acredita na viabilidade econômica e técnica do sistema orgânico de produção. Sua experiência profissional naquele estado lhe dá segurança para afirmar que o sistema orgânico possibilita diminuição de custos considerável em relação ao manejo tradicional, desde que o criador produza grãos e forragens. "Juntando o que se ganha com a não utilização de agrotóxicos na produção de alimentos e com o uso de medicamentos homeopáticos, muito mais baratos que os alopáticos, a economia pode chegar a 70%. É verdade que a necessidade de mão-de-obra aumenta, mas a redução dos custos de produção e a valorização do produto certamente são compensadoras", afirma o veterinário Araújo (Glass, 2000).

Segundo o pesquisador Marco Antônio Hoffmann, o que garante, de fato, uma produção rentável não são os produtos ou as técnicas em si, como fatores isolados, mas sim os processos eficientes, fruto do conjunto de decisões tomadas pelos produtores:
O custo efetivo da produção de leite no Brasil não é baixo porque, em sua essência, os métodos utilizados procuram imitar o que é feito em países com características muito diferente das nossas, apenas considerados “desenvolvidos”. Para ser baixo nosso custo e competitivo nosso produto, nossa produção precisa tornar-se independente das chamadas tecnologias de produto (estábulos, rações, silagem, adubos, sementes, maquinaria) e voltar-se para as tecnologias de processo. Estas dependem de nosso conhecimento e de nossa capacidade de gerenciar com eficácia os recursos e os processos envolvidos na produção (Hoffmann & Sorio Junior; 2006).

Em outras palavras, na produção de laticínios orgânicos é fundamental aplicar o conceito de organismo agrícola, criado pelo pesquisador e fundador da agricultura biodinâmica, Rudolf Steiner. Em 1924, Rudolf Steiner já descrevia em suas palestras a necessidade dos agricultores manejarem a propriedade como um grande organismo vivo (composto por lavouras, pastagens, campos silvestres ou fragmentos florestais, animais, pessoas, insumos necessários e resíduos gerados) -  um corpo indivisível (como o corpo humano) em que todas as partes se comunicam e influenciam o resultado final (ou produto comercial) da produção agropecuária (Steiner, 2000). Como um organismo vivo, a propriedade agrícola está em constante transformação e é dinâmica, exigindo dos produtores uma visão sistêmica, interdisciplinar e, sobretudo, aberta a novos conhecimentos  e experimentações, dentro dos princípios que norteiam a produção de alimentos orgânicos.

Essa visão de conjunto, sistêmica, holística que não trata das partes isoladamente e sim da interação destas e da formação do conjunto “propriedade agrícola”, exige preparo, estudo e muita dedicação do produtor que deve estar disposto a aprender e a rever sempre suas práticas e crenças e a buscar constantemente parcerias com outros produtores, técnicos e pesquisadores nas culturas ou criações escolhidas. Por esta razão que não apenas a produção de laticínios orgânicos, mas a de qualquer produto de agricultura orgânica exige um tempo de transição. Um tempo para que o produtor adapte suas condições particulares às exigentes normas da produção orgânica e “limpe” o “organismo vivo” que é sua propriedade de produtos ou processos proibidos.

Finalmente, cabe acrescentar que, para a pecuária orgânica é fundamental haver a rastreabilidade do rebanho. Rastreabilidade é um sistema de documentação que informa qual a procedência de cada animal do rebanho, seu histórico (se teve doenças, quais os tratamentos aplicados, se ficou de quarentena, etc.), para quem é comercializado, entre outros dados (Fagundes, 2006). É importante dizer que nem toda carne ou laticínio rastreado é proveniente da agricultura orgânica. Então, como diferenciar os laticínios e carnes provenientes da pecuária orgânica daqueles que receberam um manejo comum ou convencional? A resposta está no rótulo: é preciso identificar o selo de uma entidade (Ong, Associação de produtores regional ou Empresa) certificadora. É o aval da certificadora que garantirá para os consumidores que o produto final (leite, queijo, iogurte ou mesmo a carne) foi submetido a todas as exigências normativas da pecuária orgânica e pode ser comercializado como um produto diferenciado.

Como existem dezenas de certificadoras atuando no país, está em andamento junto ao Ministério da Agricultura um trabalho promovido pelos Colegiados Estaduais e Nacional de Agricultura Orgânica para a padronização dos processos gerais de certificação, e sobretudo para a adoção de um selo único conferido pelo próprio Ministério da Agricultura, a exemplo do selo de inspeção sanitária - SIF. Enquanto este selo unificador não é lançado no mercado, os consumidores podem se informar através dos telefones das certificadoras nos rótulos dos produtos ou em sites especializados, como o “Planeta Orgânico” ( ww.planetaorganico.com.br), por exemplo.

Assim, porque se cerca de todos os cuidados para garantir o bem-estar animal e a conservação da saúde dos ecossistemas e do ser humano, a agropecuária orgânica se apresenta como um novo modelo de produção de leite e seus derivados para a sociedade. Um modelo,vale lembrar, que para crescer e ser mais conhecido por toda a sociedade dependerá do apoio e do interesse de cada um de nós.


Fontes Consultadas

Avancini, César Augusto M. Sanidade animal na agroecologia: atitudes ecológicas de sanidade animal e plantas medicinais em medicina veterinária. Porto Alegre: Fundação Gaia, 1994.

Associação de Certificação Instituto Biodinâmico (IBD). Diretrizes para o padrão de qualidade orgânico. Botucatu: Instituto Biodinâmico, 2002.

Borges, Manuela; Neiva, Rubens. Sistema de Produção Orgânico será utilizado em pesquisas da Embrapa Gado de Leite. In:
http://www.cnpgl.embrapa.br/jornaleite/jornaldoleite.php?id=174

Glass, Verena. Trilha Natural: Criadores gaúchos e paulistas avançam no caminho da produção orgânica com uso da homeopatia e ervas no tratamento de doenças e cultivo de forragem para o gado sem aplicação de insumos químicos. In:http://globorural.globo.com/barra.asp?d=/edic/181/rep_leite.htm; 2000

Fagundes, Vanessa. Leite Orgânico: pesquisas orientam a produção, que ganha adeptos e promete aumentar os lucros no campo. In:http://revista.fapemig.br/materia.php?id=205

Hoffmann, Marco Antônio; Sorio Junior, Humberto. Pastoreio Voisin : Caminho para a Pecuária Leiteira Lucrativa Parte I. In:
http://www.guiabioagri.com.br/index.php?option=com_content
&task=view&id=163&Itemid=2

Alimentação. Deutschland magazine, publicado em 30/09/2005 In:
http://www.magazine-deutschland.de/issue/Kulinaria_5-05_POR_P.php

Steiner, Rudolf. Fundamentos da agricultura biodinâmica: vida nova para a terra. São Paulo: Antroposófica, 2000.

http://www.fazendatamandua.com.br/prod03.htm

 

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