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Sobre Orgânicos

Ana Elisa Feliconio, especialmente para o Sítio do Moinho

I) Classificação dos agrotóxicos e seu modo de ação

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE - divulgou em agosto de 2004 o relatório de indicadores de Desenvolvimento Sustentável, revelando que o uso de agrotóxicos no Brasil aumentou de 2,3 kg/ha. para 2,8 kg/ha. Estes números indicam que o Brasil está entre os maiores usuários do produto, perdendo apenas para a Holanda, Bélgica, Itália, Grécia, Alemanha, França e Reino Unido, segundo dados do Sindicato Nacional das Indústrias de Defensivos Agrícolas – SINDAG.

Devido à importância do tema, apresentamos a seguir informações aos consumidores sobre o que são, como se classificam e agem estes produtos, assim como as razões pelas quais eles não são aceitos na produção de alimentos orgânicos.

Também conhecidos como pesticidas, ou defensivos agrícolas, os agrotóxicos de acordo com o grupo de organismos-alvo, são classificados nos seguintes tipos: inseticidas (insetos), fungicidas (fungos), raticidas (ratos), nematicidas (nematóides), acaricidas (ácaros), bactericidas (bactérias), herbicidas (plantas).

Os pesticidas orgânicos dividem-se entre os de origem vegetal e os organo-sintéticos. Os primeiros, também muito utilizados no passado, são de baixa toxidade e de curta permanência no ambiente (Fornari, 2002). Neste grupo estão as rotenonas, extraídas do timbó ou tingui (planta usada por índios brasileiros em arpões para pegar peixes), além das piretrinas e ácidos crisantêmicos, provenientes de crisântemos e cravos-de-defunto.

O modo de ação destas substâncias sobre os insetos ocorre da seguinte maneira: ao entrar em contato com a pele ou casca do animal, atinge suas terminações nervosas, causando sua paralisia quase instantânea, seguida de morte. Por isto dizemos que o inseticida tem ação de contato, ou seja, age através do contato com a superfície do inseto e não através da ingestão, que é outro modo de ação destas substâncias. Um exemplo é o acido bórico que para matar baratas precisa ser ingerido por estas (Branco, 1990).

Vale ressaltar que substâncias extraídas das plantas são facilmente degradadas, seja pelo ambiente físico natural (o oxigênio, a luz), seja por ações de natureza biológica (decomposição por bactérias do solo ou pelo próprio organismo do inseto atingido). Isto significa, que além de serem biodegradáveis (terem curta permanência nos ecossistemas), por serem pouco tóxicos nem sempre exterminam em uma ou mais aplicações, os organismos indesejados.

Quanto aos agrotóxicos organo-sintéticos, estes possuem diversosmodos de ação. De acordo com Fornari (2002), elas se classificam em:

Ação de contato: quando a substancia quimicamente ativa do agrotóxico (chamado principio ativo) é absorvida pela pele (tegumento) do inseto.

Ação de ingestão: quando o agrotóxico penetra no organismo por via oral.

Ação de profundidade: Caracteriza o modo de atuação de um inseticida que tem ação translaminar, ou seja, que aplicado na face de uma folha, exerce sua toxidez contra insetos alojados inclusive na outra face da folha. Esta ação também pode ser observada nos frutos, quando o pesticida atinge o interior dos mesmos por translocação (transporte pela seiva da planta parasitada), destruindo as larvas do inseto, como ocorre com as môscas-da-fruta.

Ação fumigante: Caracteriza o modo de ação de um pesticida que age penetrando no inseto na forma de vapor através de suas vias respiratórias.

Quanto ao grau de toxicidade destes produtos, ele e subdivido em 04 classes toxicológicas ( Planeta Orgânico, 2005) :

Classe I (Rótulo Vermelho):
Neste grupo estão as substâncias ou compostos químicos são considerados "altamente tóxicos" para o ser humano. Exemplo: grupo dos clorados ( DDT, BHC, etc)

Classe II (Rótulo Amarelo):
Este grupo e considerado "medianamente tóxico" para o ser humano. Exemplo: grupo dos carbamatos.

Classe III (Rótulo Azul):
Os produtos desta classe são classificados em "pouco tóxico" para o ser humano. Exemplo: grupo dos organofosforados.

Classe IV (Rótulo Verde):
Esta classe é considerada "praticamente não-tóxico" para o ser humano. Neste grupo estão os piretróides.

1.2)Classificação Especifica dos Agrotóxicos Organo-sintéticos
Os organo-sintéticos se subdividem em clorados, cloro-fosforados, fosforados, carbamatos e fumigantes (Fornari, 2002, Branco, 1990):

Clorados (ou Organoclorados):
Grupo químico dos agrotóxicos compostos por um hidrocarboneto clorado que possui um ou mais anéis aromáticos, ou mesmo cíclico saturado. Em relação aos outros organo-sintéticos, os clorados são menos tóxicos (em termos de toxidade aguda), mas são também mais persistentes no corpo e no meio-ambiente, podendo causar efeitos patológicos no longo prazo.

O agrotóxico organoclorado atua no sistema nervoso, interferindo na troca iônica que caracteriza a transmissão do impulso nervoso. O DDT faz parte do grupo dos organoclorados.

Alguns exemplos de agrotóxicos que fazem parte deste grupo: DDT, BHC, Aldrin, Endossulfan

Cloro-fosforados:
Grupo químico dos venenos compostos por um éstere de ácido fosfórico (ou tionofosfórico), ditiofosfórico e fosfônico (ou tionofosfônico), que em um dos radicais esterificados possui um ou mais átomos de cloro. Possuem toxidez aguda semelhante à dos fosforados em geral, sendo, como éster, degradados rapidamente e não se acumulando nos tecidos gordurosos. Atua sobre a colinesterase (enzima de fundamental atuação no sistema nervoso) nas sinapses nervosas.

Fosforados (ou Organofosforados):
Grupo químico dos venenos compostos por em éstere de ácido fosfórico (ou tionofosfórico), tiolofosfórico, ditiofosfórico, fosfônico, tionofosfônico (ou ditiofosfônico). Atua inibindo a colinesterase nas sinopses nervosas. O problema dos organofosforados é que esta enzima responsável pelos impulsos nervosos no cérebro está presente em todos os animais, incluindo o ser humano. Ou seja, em relação aos agrotóxicos clorados e carbamatos, os organofosforados são mais tóxicos para diversas espécies de seres vivos. E, embora sejam degradados mais rapidamente no meio ambiente, possuem a desvantagem de serem mais solúveis, ou seja, uma vez aplicados, mais facilmente são arrastados pelas águas da chuva para os rios, podendo atingir peixes e outros organismos aquáticos. Exemplos de alguns produtos deste grupo - Clorpirifós, Coumafós, Diazinon, Diclorvos (DDVP), Fenitrotion, Fenthion, Supona (Clorfenvinfos) e Triclorfon (Metrifonato).

Carbamatos:
Grupo químico dos venenos compostos por ésteres de ácido metilcarbônico ou dimetilcarbônico. Em relação aos pesticidas organoclorados e organofosforados, os carbamatos são considerados de toxidade aguda média, sendo degradados rapidamente e não se acumulando nos tecidos gordurosos. Os carbamatos atuam inibindo a colinesterase em sinopses nervosas, e muitos destes produtos já foram proibidos em vários países em virtude de seu efeito altamente cancerígeno. Alguns exemplos - Carbaril, Propoxur, Aldicarb e Carbofuran

1.3) Herbicidas: uma categoria especial.

Os herbicidas são compostos químicos usados para combater as ervas invasoras, chamadas de daninhas pelos agricultores porque atrapalham o desenvolvimento da lavoura comercial que é introduzida no local. Vale lembrar que estas ervas são, quase sempre, espécies nativas daquele ambiente, extremamente adaptadas ao solo e climas locais e que existiam muito antes das pastagens e cultivos agrícolas. Contudo, como o agricultor não tem interesse comercial nestas plantas, mas nas espécies que ele semeia, são utilizados vários métodos de controle do desenvolvimento destas ervas invasoras, que vão desde a capina manual com a enxada até o uso dos mata-matos ou herbicidas sintetizados pela indústria química.

Os herbicidas foram sintetizados pela indústria a partir de 1944 e agiam de forma semelhante a certos hormônios de crescimento produzidos pelos vegetais, causando uma espécie de caos hormonal que atrapalhava o crescimento e o desenvolvimento das plantas daninhas. Depois vieram os compostos sintéticos à base de uréia, que atrapalhavam o processo de fotossíntese destas plantas, mas que eram também pouco seletivos. Depois foram sintetizadas na Suíça as triazinas (simazina, atrazina), depois vieram as amidas, os carbamatos e os fenóis, cada qual agindo em grupos específicos de plantas (Branco, 1990).

Mundialmente, o herbicida mais conhecido é o Agente-laranja por ter sido usado na Guerra do Vietnã (1954 a 1975) pelo exército americano como desfolhante, ou seja, para provocar a queda das folhas das árvores daquele país e permitir a visualização dos vietnamitas no meio das florestas. O uso deste produto continuamente entre os anos de 1962 e 1975, ao ser carregado pelas águas da chuva em direção aos rios e ao mar, contaminou todo o ecossistema da região e atingiu as pessoas que consumiam a água, além de comprometer a saúde dos bebes nascidos posteriormente (que apresentaram deformidades físicas devido ao contato de suas mães com o produto).

Isto porque o Agente-Laranja é formado pela mistura de dois outros produtos: o 2,4-D e o 2,4,5-T ambos classificados como derivados do ácido fenoxiacético. Estas substâncias são muito tóxicas (Classe I) para insetos e outros pequenos animais terrestres e aquáticos. Além disto, o Agente-Laranja tem na sua composição uma perigosa impureza – a dioxina – que e o mais ativo composto teratogênico (causador de deformações em recém-nascidos) conhecido. A dioxina permanece no solo ou nas águas por mais de um ano, exercendo seu efeito tóxico sobre a fauna, a flora e até sobre o ser humano através do consumo de alimentos e água contaminados (Branco, 1990).

No que diz respeito ao modo de ação, diferentemente dos inseticidas que têm largo espectro de ação (matam varias espécies de insetos de forma indiscriminada), os herbicidas possuem ação específica. Isto significa que agem sobre um grupo especifico de plantas que pode ser o das monocotiledôneas ( de folhas estreitas como as culturas de milho, arroz, aveia e outros cereais) ou dicotiledôneas ( de folhas largas, como a soja, o feijão, legumes e verduras em geral). Também se distinguem pela época em que são aplicados. Para o combate da erva conhecida como tiririca, por exemplo, são utilizados produtospré-emergentes, que recebem este nome porque são aplicados no solo antes do desenvolvimento da cultura comercial para impedirem que as sementes das chamadas ervas daninhas germinem e possam competir por água, luz e espaço com as espécies que o produtor deseja comercializar.

Já outras espécies de ervas invasoras como o amendoim-bravo, que compete com a cultura da soja, recebem herbicidas chamados depós-emergentes, aplicados sobre a espécie de planta indesejada, quando esta já cresceu sobre o solo.

II) Porque os agrotóxicos não são utilizados na agricultura orgânica?

Para se ter uma idéia da gravidade do tema para a saúde pública, pesquisa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA – em maio de 2004, revelou que as frutas e saladas consumidas pelos brasileiros têm alto índice (81,2%) de contaminação por agrotóxicos, especialmente a alface, batata, maçã, banana, morango e mamão, sobretudo estes dois últimos, comprometidos em boa parte das amostras.

No Brasil, por exemplo, as hortaliças e as culturas do tomate, morango, batata e fumo utilizam agrotóxicos conhecidos como os organofosforados e ditiocarbamatos que são considerados por pesquisadores como os prováveis causadores das doenças neurocomportamentais, depressão e do conseqüente suicídio entre os agricultores.

Além dos resíduos que intoxicam os agricultores durante a aplicação destes produtos, a aspersão de agrotóxicos como os fungicidas nas cascas das frutas e legumes ou o uso de pesticidas que atuam em profundidade (que circulam na seiva da planta e depois se depositam dentro dos frutos ou das folhas) podem contaminar os alimentos de forma que mesmo uma higienização adequada não elimina completamente todos os resíduos. Ou seja, no longo prazo, a ingestão destes produtos é praticamente inevitável.

É por esta razão que, práticas como a escolha de verduras e legumes da estação climática ou higienizar alimentos buscando diminuir a ingestão de resíduos, embora sejam eficazes para diminuir o contato com os agrotóxicos, não garantem uma proteção completa. O ideal seria evitar alimentos obtidos no modelo convencional de produção e privilegiar o consumo dos orgânicos.

Vale ressaltar que o meio ambiente também tem sua saúde afetada por estes produtos. Atualmente, apesar da proibição do uso dos organoclorados ( DDT, BHC, Lindane, Aldrin, etc) que permanecem nos solos e nas águas por muitos décadas, outros produtos mais modernos como organofosforados, continuam a oferecer riscos. Isto por que são mais tóxicos que o primeiro grupo, devido sua capacidade de provocar lesões no sistema nervoso de varias espécies de mamíferos, incluindo a nossa. Além disto, a vantagem propagada por seus fabricantes de que este grupo se decompõe mais rapidamente no meio ambiente também é questionável, na medida em que são usados de forma contínua ano após ano (seu uso nunca e suspenso) nos solos e muitas vezes em um maior numero de aplicações dentro de uma mesma safra na agricultura convencional. Esse aumento de pulverizações, além da contaminação ambiental ainda causa um outro problema ecológico: a maior resistência que as pragas adquirem quando expostas repetidamente a estes agrotóxicos. Ou seja, em vez de os organismos indesejáveis morrerem, eles sobrevivem e passam esta capacidade de resistir aos agrotóxicos para as novas gerações, o que leva os produtores a aumentarem o número de aplicações, agravando ainda mais o problema.

Este círculo sem fim de dependência destes produtos ocorre porque o modelo da agricultura convencional é formatado para enfraquecer continuamente a resistência natural das plantas a doença e comprometer a estrutura dos solos tropicais (Paschoal, 1994). Esse conjunto de práticas, somado a predominância de uma só espécie cultivada (monocultura), faz com que o controle das pragas através dos agrotóxicos, ao invés da solução de um problema, seja apenas um modo de evitar prejuízos econômicos ainda maiores em uma lavoura fragilizada pelo uso contínuo destes produtos.

Em contraposição ao modelo convencional, os produtores de orgânicos adotam uma nova visão da agricultura, mais abrangente, unificadora dos aspectos ambientais, tecnológicos e humanos que compõe toda a cadeia produtiva de alimentos e matérias-primas. Esta nova visão pressupõe enxergar a propriedade não apenas como suporte físico para se colocar plantas e animais em cima, mas como um grande organismo vivo, no qual as interações entre cada aspecto da produção são mais importantes do que dois aspectos vistos isoladamente: é a chamada visão holística, que busca entender o que provoca o aparecimento de pragas e doenças e atacar o problema na sua origem (uma deficiência nutricional das plantas, falta ou excesso de água nos solos, erosão, entre outras causas). Ou seja, nas propriedades orgânicas é necessário conhecer as interações ecológicas que ocorrem entre clima, solo, microorganismos, plantas e animais (silvestres ou cultivados/criados), e outros elos dessa grandeteia de relações que compõe a produção de alimentos e matérias-primas no campo. Acrescente a estas interações o fator humano, expresso nas pessoas que produzem e trabalham na propriedade e também naquelas que processam e comercializam os alimentos orgânicos. Para um alimento receber a certificação de orgânico ele precisa fazer parte de uma cadeia de produção e comercialização apoiada na ética da conservação ambiental, da produção de alimentos sadios e do respeito ao conhecimento de agricultores familiares e trabalhadores rurais. Entre outras palavras, o alimento orgânico é muito mais que um produto isento de agrotóxicos. É a expressão final de toda uma cadeia de produção que - da semente a mesa do consumidor – promove a saúde humana mantendo da saúde do planeta.

III) O que os consumidores podem fazer

Enquanto não for possível adotar uma dieta composta apenas por alimentos orgânicos, o consumidor pode diminuir sua exposição a esses produtos, selecionando alimentos com menor risco de contaminação e realizando uma higienização adequada de frutas e verduras.

3.1) Grupos de Alimentos X Risco de Exposição aos Agrotóxicos

De acordo com Darolt (2002), os alimentos podem ser classificados em 03 grupos quanto ao risco de exposição aos agrotóxicos:

1. Risco Baixo: grupo composto por espécies de frutas, legumes e verduras com ciclo curto de cultivo e que recebem menos pulverizações com agrotóxicos. Exemplos: feijão, hortaliças de folhas, caqui, pitanga, abacate, acerola, jabuticaba, coco, mexerica, nêspera.

2. Médio Risco: possuem um ciclo de vida intermediário e recebem um número de pulverizações um pouco maior do que os alimentos do grupo anterior. Exemplos: arroz, beterraba, cenoura, alho, banana, manga, abacaxi, melancia, laranja, mamão da variedade Formosa, maracujá.

3. Alto Risco: são mais exigentes quanto ao tipo ou número de práticas agronômicas para sua produção e estão mais sujeitos ao ataque de pragas. São os alimentos que mais recebem pulverizações de agrotóxicos. Exemplos: tomate, pimentão, berinjela, pepino, abobrinha, morango, goiaba, uva, maçã, pêssego, mamão papaia, figo, pêra, melão, nectarina.

Para diminuir sua exposição, os consumidores podem, por exemplo, substituir os alimentos do grupo 03 pelos que são produzidos em lavouras orgânicas e fazer a correta higienização de frutas e verduras.


Bibliografia Citada

Paschoal, Adilson, D. Produção Orgânica de alimentos: agricultura sustentável para os séculos XX e XXI, guia técnico e normativo para o produtor, o comerciante e o industrial de alimentos orgânicos e insumos naturais. Ed.: Adilson D. Paschoal.

Darolt, M. Roberto. Alimentos Orgânicos: um guia para o consumidor inteligente. Curitiba: IAPAR, 2002.

Fornari, Ernani. Manual prático de agroecologia. São Paulo: Aquariana, 2002.

Branco, Samuel M. Natureza e Agroquimicos. São Paulo: Ed. Moderna, 1990.

www.planetaorganico.com.br

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